08/12/16

Amarante Pessoas - Ferreira era um lavrador da aldeia, tinha cerca de 50 anos, a mulher era muito doente, a Marquinhas do Olival, acabando por falecer muito nova, com quarenta e poucos anos de idade e três filhos praticamente criados.



«Ferreira, o viúvo fresco

Ferreira era um lavrador da aldeia, tinha cerca de 50 anos, a mulher era muito doente, a Marquinhas do Olival, acabando por falecer muito nova, com quarenta e poucos anos de idade e três filhos praticamente criados. Estávamos no início dos anos oitenta, o Ferreira como já há muito tempo tinha pressentido o desfecho da doença da sua companheira, foi deitando os olhinhos à Isaura do Marceneiro, moça quarentona, cuja idade foi avançando sem que ela arranjasse marido.

E deu-se o desfecho natural, Marquinhas acabou por falecer, não resistindo a uma longa doença que a infernizou, a partir dos trinta anos. Começou por ser um problema ósseo, que se espalhou pelo organismo e que a vitimou de forma lenta e cruel. Aos poucos foi perdendo a sua mobilidade, a sua destreza física e o conhecimento, pois no seu último ano de vida, acamada, não reconhecia mais ninguém: nem mulher, nem filhos, nem amigos. Nos últimos dias do mês de novembro de 1982, foi chamado o Padre Mário para ele lhe conferir o sacramento da extrema-unção, dado que a sua morte estava muito próxima, estando a Marquinhas, mas a dar as ultimas, já que nem o Padre reconheceu.

Marquinhas partiu, deu o suspiro final e o viúvo fresco, cedo começou a lançar a rede à Isaura que, à falta de melhores pretendentes e com a idade a passar, para as mulheres com a agravante do relógio biológico poder retirar a capacidade de fecundação, o que quer queiramos, quer não, as faz sentir diminuídas enquanto mulheres plenas, lá se deixou enredar pelos avanços do experiente e determinado Ferreira.

Ferreira era um lavrador que tinha brio no seu trabalho, gostava que a sua quinta fosse como que um jardim, devido ao empenho que lhe dedicava no seu trato e, além do mais, produtiva o quanto baste, para alimentar a família e pagar a renda ao senhorio. Para isso, contava com dois filhos e uma filha do seu primeiro casamento, jovens adolescentes que muito o ajudavam na labuta diária e trabalho braçal, que o trabalho agrícola ainda exigia naquele tempo.

Contudo, os tempos estavam a mudar rapidamente. A agricultura não se apresentava como boa opção futura para os mais jovens, que partiam rapidamente para outras profissões como a construção civil que começou a desenvolver-se por esses tempos, ou então, emigrando para variados países europeus, na busca de melhores remunerações, que em Portugal não seriam possíveis. Assim aconteceu, com os filhos do Ferreira. Este, perante isso, tratou de casar rapidamente com Isaura. Já lá diz o ditado popular: “Homem velho mulher nova, filhos até à cova!”. Ao fim de um ano já tinham um filho, um rapaz forte, que viria a ser loiro, forte e de faces coradas, sinal de saúde dizia o povo. Ferreira mantinha a esperança de que este o ajudaria, seria o seu apoio, o braço direito, agora que a idade o começava a penalizar nas forças, a idade ia avançando com as naturais consequências na sua saúde.

O episódio que queria narrar, essencialmente, foi a forma como tudo aconteceu, neste segundo casamento de Ferreira. Estávamos numa aldeia de entre Douro e Minho, no início da década de oitenta e ainda haviam manifestações de ancestralidade rural, que me deixaram surpreendido, enquanto jovem que nada sabia dessas tradições rurais, fundas no tempo.

Os rapazes solteiros da aldeia, quando já era certo o segundo casamento de Ferreira, começaram a fazer romarias a casa deste, batendo com paus e ferros em latas e tudo o que fizesse muito barulho, com cantigas cantadas em paródia conjunta, em versos simples, mas incisivos. Se bem me posso lembrar, brotaram versos cantados, tais como: “O Ferreira vai casar com a menina do lugar”; “O Ferreira mal a mulher enterrou, com rapariga nova logo se casou”. Foram de facto dias de agitação na pacatez de uma aldeia rural, que viveu dias fora do normal. Os rapazes aos grupos, quais caretos de Trás-os-Montes, faziam uma chinfrineira que veio agitar os dias calmos da aldeia.

Mas, como tudo na vida, o tempo tudo levou, rapidamente a vida de Ferreira, de Isaura e da aldeia, foi voltando ao normal. Assim que o casamento foi consumado, a rapaziada deixou o casal em paz e o coro das velhas e beatas sossegou do falatório que, durante aqueles tempos mais agitados, se gerou. O filho do casal foi crescendo, escusado será dizer que foi muito estimado pelos pais, vaidosos por terem um filho tão bonito, mas depressa concluíram que, para o filho ter futuro melhor que, aquela agricultura tradicional, muito trabalhosa e pouco rentável, já não poderia garantir.

E assim foi passando o tempo, o filho do casal emigrou para a Suíça para trabalhar na hotelaria, o Ferreira deixou a quinta pois já não a conseguia fazer, foi viver com uma das filhas do primeiro casamento. Este é apenas mais um dos retratos, entre muitos, do fim da agricultura tradicional, do abandono forçado pela evolução das terras em ambientes rurais. 

Dizem que vivemos atualmente um regresso dos mais jovens e altamente qualificados à terra, com formas de agricultura altamente mecanizadas e diversificadas na sua produção. Esperemos que seja um bom regresso, os campos estão abandonados aos matagais, as aldeias estão sem pessoas e precisam de ser revitalizados. Doutro modo, a desigualdade entre litoral e interior só tenderá a aumentar em maior escala e qualquer dia, metade do país é deserto e pasto para incêndios florestais. Há que conferir eficácia à distribuição de fundos comunitários para projetos de e para o futuro.  Portugal é cada vez mais Lisboa e o Litoral, passa por nós que já fomos os descobridores do mundo, encontrarmos mais Portugal em Portugal.

Se o mundo do Ferreira já acabou, desafiemos as novas gerações redescobrir a ruralidade, em moldes mais atuais, com maior eficiência e criando riqueza no Portugal interior. Doutra forma, a meia faixa vertical de Portugal continental será um infeliz prolongamento das Ilhas Desertas. Não será um caminho fácil, dado que somos um pequeno país de uma Europa em crise identitária, mas que ainda é o continente de referencia existencial, na minha opinião, mais evoluído, urge darmos mais Mundo ao Mundo e mais Portugal a Portugal, dando merecimento aos inúmeros sacrifícios que as gerações anteriores fizeram para chegarmos até aqui, uma nação com perto de mil anos de história.» in http://birdmagazine.blogspot.pt/2016/12/ferreira-o-viuvo-fresco.html



JACKSON E ALMIRA - "VIÚVO ALEGRE"

Sem comentários:

Enviar um comentário

Pin It button on image hover