21/03/17

Amarante Pintura - Cozinha da Casa de Manhufe oferece uma vista da cozinha desde as escadas e é um jogo de diferenças em tamanho real.



«Pelas terras de Amadeo de Souza-Cardoso. De Amarante a Manhufe

A casa onde nasceu o pintor mantém-se na sua família conservada quase como nos tempos em que o artista aqui viveu e pintou. Numa rara ocasião, as portas abriram-se a quem quis percorrer os caminhos do artista. De Amarante a Manhufe.

Julgamos, através da correspondência, que o pai do Amadeo teria a intenção de lhe entregar o negócio da distribuição do vinho". A revelação de Marta Soares, mestre em História da Arte e curadora da mais recente exposição do artista no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto, e no Museu Nacional de Arte Contemporânea, em Lisboa, tinha ficado guardada para o momento em que se entra na cozinha da casa de Manhufe, aquela que Souza-Cardoso pintou e que se mantém quase igual ao quer era em 1913. "É uma cozinha suspensa no tempo".

O quadro pode ser visto no Museu Gulbenkian - Coleção Moderna, as portas da casa raramente se abrem. Sábado, dia 11, foi uma desses raros dias em que José de Sousa Cardoso, sobrinho-neto de Amadeo, deu autorização. É o filho, António, sobrinho-bisneto do pintor, quem abre o portão da quinta, um exemplar de ferro antigo com a data da fundação inscrita: 1858. Amadeo de Souza-Cardoso, quinto de nove irmãos, nasceu na casa da família a 14 de novembro de 1867. Uma placa na fachada principal assinala a efeméride. Estamos em Manhufe, aldeia da freguesia de Mancelos, em Amarante, entre o Porto e Vila Real.

A casa e as terras foram a herança dos pais de Amadeo, Amélia e José Emydgio de Souza Cardoso, o primeiro exportador de vinho verde e presidente da câmara de Vila Real.



O atelier que o pai de Amadeo manda construir para o filho | RUI MANUEL FERREIRA/ GLOBAL IMAGENS

"Há várias cartas escritas à mulher, Lucie, nesta cozinha", conta Marta Soares, cuja tese de dissertação de mestrado foi justamente Amadeo de Souza-Cardoso e a revista Orpheu. Continua a ser, confirma outra sobrinha-bisneta, Cândida, um local de reunião, como nessa época.

O quadro "Cozinha da Casa de Manhufe" | DIREITOS RESERVADOS


Cozinha da Casa de Manhufe oferece uma vista da cozinha desde as escadas e é um jogo de diferenças em tamanho real. O que está igual ao quadro? O pano na coluna central já lá estava em 1913, tal como a mesa. São novos os pratos de cerâmica e o painel que representa Jesus, reparam a meia centena de visitantes que se acotovelam na cozinha. Frequentam os cursos e passeios culturais do instituto de cultura Inkultu, em Gaia. Carla Gomes, à frente da organização, mobilizou-os para uma visita por terras de Amadeo, depois de terem estado em Lisboa na exposição que evocava o centenário da mostra que o artista tinha feito na Liga Naval. Foi assim que conheceram a curadora Marta Soares, que se somou à viagem e vai desfiando a biografia do artista.

Os pais de Amadeo financiam o filho em Paris, para onde este parte em 1906, depois de uma passagem fugaz pelo curso de Arquitetura na Escola de Belas Artes, em Lisboa. Em Manhufe, onde o artista passa largas temporadas entre 1906 e 1914 (e onde se refugia quando a I Guerra Mundial começa com a mulher), o pai manda construir um atelier. Três divisões e, numa delas, janelas grandes que davam para a serra. Precisa de restauro, algo que está nos planos da família.

O atelier foi construído junto à casa do tio Francisco, irmão da mãe, figura fundamental na carreira artística do pintor. "É ele quem convence o pai a deixar o Amadeo ir para Paris", explica Marta Soares. "Era amigo de pintores como Columbano [Bordalo Pinheiro], do rei D. Carlos, viajava muito, ia a Paris, tinha um grande rede de contactos". Mas, completa, não gostou da arquitetura do atelier, percebe-se numa carta.

Os pedidos de visitas crescem com a popularidade do artista. "Tenho de travar", confidencia José de Sousa Cardoso ao DN. Para lá da cozinha e do atelier, as portas estão fechadas ao olhar de estranhos. O quarto, que os descendentes garantem que se mantém como no tempo do "tio Amadeo", como lhe chamam, só foi mostrado para o documentário Amadeo de Souza-Cardoso: O Último Segredo da Arte Moderna, do luso-francês Christophe Fonseca, exibido por ocasião da exposição que a Gulbenkian de 2016 no Grand Palais, em Paris. Já as obras do pintor quer pertencem à família estão em depósito no Museu Municipal de Amarante, batizado com o seu nome. Tinha sido um dos pontos de passagem do grupo na manhã de sábado, guiados por Marta Soares.

A visita começa na românica igreja de Santo André de Telões, a que José Saramago dedica algumas linhas em Viagem a Portugal (1981), como lê Miguel Augusto Sousa, da Sentir Património, que orienta estes percursos. Introduzem-se os visitantes nas paisagens da infância de Amadeo. E continua-se até ao centro de Amarante, cruzando a ponte Teixeira de Pascoaes. Do outro lado do rio Tâmega, o museu ocupa uma parte do Convento de São Gonçalo. Numa vida anterior, este mesmo convento foi estabelecimento de ensino. "Amadeo frequentou aqui o liceu", refere Marta Soares, durante a visita.

As obras mais antigas do artista testemunham o seu interesse pela caricatura. Um dos "alvos" é o escritor Manuel Laranjeiro, com quem coincide no Café Chinês, em Espinho (onde passava férias e onde viria a morrer em outubro de 1918, vítima de pneumónica), um dos seus primeiros apoiantes. É aqui que se encontra o retrato do tio Francisco, pintado de forma mais tradicional. Marta Soares regressa à correspondência: "O tio, que apoia o sobrinho, também critica a obra. Quer que seja artista, mas também não era preciso ir tão longe".» in http://www.dn.pt/artes/interior/pelas-terras-de-amadeo-de-souza-cardoso-de-amarante-a-manhufe-5730112.html


Google Doodle: 125th Birthday of Amadeo de Souza-Cardoso [HQ]

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