04/02/16

Amarante Pessoas - Esta é mais uma estória, ou uma parte muito pequenina desta, sobre um menino, um jovem adolescente aparentemente normal, mas que me interpelou de forma fulminante, pelo seu Humanismo.

«Jovem coragem incógnito...

Esta é mais uma estória, ou uma parte muito pequenina desta, sobre um menino, um jovem adolescente aparentemente normal, mas que me interpelou de forma fulminante, pelo seu Humanismo. Tratava-se de um jovem estudante do décimo ano de um curso profissional, numa turma com trinta alunos, ou seja, trinta nacos de vida que, para alguns deles se tornara bem madrasta. O seu nome é Michel, talvez porque o seu pai está há muito tempo emigrado em França.

Com o ensino obrigatório a subir para o nível secundário, as estórias de dramas entre os adolescentes, vão-se replicar inevitavelmente. Não que eu seja contra essa obrigatoriedade, não sei é se a nossa sociedade, organização escola incluída, estão preparadas para esta situação.

Mas isso sou eu a pensar alto! Quem sou eu, haverá certamente gente muito mais preparada para abordar esta problemática que se começa a sentir nas escolas portuguesas, com repercussões em toda a sociedade, afinal está tudo ligado, o todo social é um sistema de vasos comunicantes. 

Voltemos ao Michel. Este jovem perante a prematura separação dos pais e os problemas de saúde da sua Mãe, atinentes ou não, a tal situação, tem sido um exemplo de resiliência até limites impensáveis, para um adulto, quanto mais para um adolescente.

A Mãe em resultado de um esgotamento nervoso com várias repetições, de tal forma que nunca mais se equilibrou mental e fisicamente, era uma doméstica muito pálida e magra, quase parecendo um esqueleto com gestos automatizados, fruto das elevadas doses de medicamentos que ingeria, no sentido de, pelo menos se manter em pé, na sua luta diária contra o seu ímpeto de morte.

O pai, depois de manter um relacionamento breve com ela e de a ter emprenhado, abalou novamente para França, pois já lá tinha sido emigrante, abandonando à sua sorte uma mulher frágil e com uma criança no ventre, sem qualquer explicação, mas com muita violência diária nas vertentes física e psicológica. Ele bebia muito e era mulherengo, e, deste modo, foi fácil habituar-se a uma vida solitária, de muita bebida, trabalho temporário na construção civil e de relacionamentos breves.

Da mulher e do filho é que nunca mais quis saber, nem telefonemas, nem vindas a Portugal, não enviava um cêntimo que fosse tornando a vida do Michel e da Mãe, num autêntico inferno, para uma mulher que já tinha demónios que chegassem na sua cabeça e para um jovem que tinha que gerir o caos em que a sua vida se transformou.

Quando um professor está imerso numa turma de trinta alunos, nem sempre consegue aperceber-se de pequenos sinais, que dizem muito. Ademais, Michel, apesar de ser extremamente magro e de uma palidez doentia, dava uma imagem de um jovem divertido e que socializava com muita facilidade. Contudo, prevalecia na sua maneira de ser, a sua prematura maturidade. Nunca exteriorizava a dor e a sua preocupação constante, o seu instinto permanente de proteção à Mãe. De resto, tratava-se de um rapaz extremamente educado, bom aluno e de uma cortesia já fora do comum, numa sociedade juvenil extremamente individualista e arrogante.

Então a vida do Michel era mais ao menos assim: praticamente não dormia, pois, a sua progenitora também não devido ao seu desequilíbrio nervoso; portanto estava sempre num estádio de vigília, fruto das variadas tentativas de suicídio da sua progenitora, que ele, quase miraculosamente sempre obviou de forma heróica. A mãe tentou-se esganar, tomar comprimidos em excesso, atirar-se da janela abaixo, mas sempre o Super-Michel conseguiu assistir a tempo de evitar qualquer tragédia.

Assim, a sua vida pessoal era uma tragédia, não dormia, mal comia, mantendo-se sempre alerta e atento para o seu mais importante desígnio: a vida da sua Mãe doente. Olhava-se para ele e não se conhecendo o seu historial de vida, ninguém diria, que este simpático aluno que tanto sofria e que tinha por baixo da sua capa de normalidade, um coração e uma atitude perante a sua vida sofrida, de Super-Homem.

Por muito mal que esteja a escola pública, esta ainda é um esteio social que funciona em consonância com a comissão de proteção de menores, permite reforços alimentares e acompanhamento psicológico a estes alunos; mas claro, perde nos rankings, para as escolas privadas. Para mim, Michel, nome ficcionado de uma história quase real, se não fosse a minha subjectividade natural, é um herói da escola pública portuguesa. Deveria pertencer a um qualquer quadro de mérito, mas isso pouco interessa à nossa sociedade, em que cada um vive virado para o seu umbigo e casos destes, não se enquadram em quadros de mérito convencionados para um putativo sucesso.

Para os colegas, embora fossem quase sempre solidários, Michel era mais um, no meio de tantos e jamais vislumbrariam no sorriso tão simpático, qualquer problema familiar ou pessoal. Mas integravam bem o seu colega numa escola de que me orgulho, muito por estes casos com que me vou deparando... isto é serviço público, não são números!

Com o passar do tempo, os nossos Super-heróis da adolescência, aqueles que voam e tudo, são substituídos por seres humanos comuns na sua aparência, mas extraordinários na sua presença Humana...  que grande lição de Vida que este Michel nos dá, vestida de uma simplicidade incrível! O que mais nos surpreende a todos os que querem ver, é que ele tem sempre um sorriso apaziguador para nós todos que lidamos com ele. 

E, numa altura em que cada vez mais pessoas fazem tatuagens de anjos na pele, criando uma ideia de belo no sentido puramente real do estético, é bom saber que ainda existem anjos por dentro, revelando o Belo que há nos seres humanos, como nesta epifania aqui revelada.

Qualquer semelhança desta estória com a realidade... trata-se de pura ficção, pois já não devem existir seres assim tão nobres na sua simplicidade, na sociedade atual! Por certo, este personagem foi criado por um delírio de que fui acometido...» in http://birdmagazine.blogspot.pt/2016/02/jovem-coragem.html


(Massive Attack - "Angel")



"Angel
Massive Attack

Horace Andy :
You are my angel
Come from way above
To bring me love

Her eyes
She's on the dark side
Neutralize
Every man in sight

Love you, love you, love you ...

You are my angel
Come from way above


Love you, love you, love you ..."

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