22/09/16

Amarante Mancelos - Histórias de vindimadores, bravos heróis da nossa história rural, que transportavam, subiam e desciam enormes escadas de madeira, que pareciam brinquedos nas suas mãos...



«“Os vindimadores”

Anos setenta, Freguesia de Mancelos, Zé o vindimador era um homem robusto, trigueiro de estatura mediana, de face corada, um homem alegre, que conferia uma certa magia, aos dias de vindimas que eram seguidos e duros, de sol a sol, com frio, calor ou chuva. Este personagem passava a vida a cantar e a meter-se com as cesteiras, que carregavam pesados cestos de uvas até às valsas dos carros de bois, ou quando estes estivessem por perto, diretamente para os lagares, onde se relavam e apertavam as uvas, para se obter o precioso néctar, o nosso maravilhoso vinho verde de Amarante, muito afamado nesses tempos.

Passava a Lúcia da Aldeia e o Zé, logo inventava uma rima, para deixar a moça corada: 

“Lúcia moça corada e roliça,
Anda sempre de bem com a vida.
No Domingo no fim da missa,
Roubou o namorado da Guida”

"Roubei nada tio Zé, não diga disparates, bem sabe que a Margarida pode não gostar, ainda se acredita que é verdade e a mim não me faltam pretendentes", retorquiu a Lúcia, toda senhora do seu nariz, e de mulher que não gosta de deixar ninguém sem resposta.

Acontecia que em quase todas as vindimas participava o Senhor José “Vira” que, tendo um problema de saúde, sabia tirar disso partido, para animar a malta. Ele sofria bastante de gases e quando subia às escadas, gostava de dar a ouvir as suas habilidades intestinais. Quando isso acontecia, ele costumava gracejar dizendo a cantar: 

“Bom dia compadre Aniceto, 
Estás quentinho e aqui está frio.
Tu que viestes pelo meu recto,
Um buraco tão sombrio…”

Era um gargalhar geral, todos se riam e animavam, pediam a caneca para molhar a beiça e toda a gente sorria. O “Vira” teve o seu momento, agora só mais para a tarde se repetiria a graça, inopinadamente, quando ninguém estivesse a contar com isso. Se lhe pediam para antecipar o ato, ele dizia que não tocava à jorna. Tempos difíceis, vindimas com muita mão de obra, escadas que chegavam a vinte banzos para vindimar nas árvores mais altas que, ladeavam os grandes campos de milho, cesteiras a carregar quilos e quilos de uvas à cabeça, animais a puxarem enormes balsas de uvas, reladores de uvas manuais e depois a prensa para finalizar, em que espremia o bagaço até ao tutano; nada se desperdiçava naqueles tempos. 

Durante a tarde, o povo da vindima falava mais, o lanche de pão e de fumeiro regado com vinho tinto da casa, levava a animação ao zénite. Uns metia-se com os outros, as cesteiras tinham que ouvir e calar, doutro modo era pior, e, as meninas que apanhavam os vagos também não escapavam às provocações dos vindimadores. O “Vira” lá para as cinco da tarde, de um dia do final de setembro, soltou novamente um grande ruído oriundo do seu interior. Isto parece um tratado de escatologia, mas era mesmo assim. Disse ele então:

“Boa tarde meus senhores,
Que eu já estou a roncar,
Berrei alto de tantas dores,
De ver a cesteira passar…”

Muito trabalho, é evidente que vindimar, hoje em dia, é algo muito mais mecanizado, em que as vinte ou trinta pessoas de outrora que trabalhavam em bando, são substituídas por tratores industriais, motores e prensas elétricas. Além disso, antigamente faziam-se as “tornas”, ou seja se A fosse à vindima de B, B teria que vir à vindima de A. A comida das vindimas era sempre algo muito apetecível. Gente pobre mas honrada, guardavam os melhores frangos para uma boa arrozada, o anho, o porco, boa sopa, vinho da casa e uma deliciosa aletria como sobremesa. A meio da manhã, costumava-se dar ao pessoal bacalhau frito com pão e vinho, para animar a malta. Vivia-se um ambiente quase mágico, de certa forma onírico, para um miúdo como eu,  no meio daqueles homens e mulheres duros e gastos pelo trabalho, mas que faziam das vindimas o ponto alto das colheitas do ano, em que o precioso néctar produzido assumia um carácter divino, quiçá, em analogia com o ato religioso, da partilha das tarefas, pão e vinho, como sempre se representava nas missas, a que todos assistiam escrupulosamente, num ritual verdadeiramente sagrado.

Vinha a noite, mas o trabalho no lagar continuava. Apertavam-se as uvas brancas, com quatro bravos homens a puxar à prensa, num ritmo compassado com as vozes dos homens: “Vem vai, vem vai e vem vai…”. No lagar das uvas tintas, um grupo de oito homens cantava canções populares, enquanto se pisavam as uvas. O dono da vindima, ou o caseiro da quinta, vinha trazer aguardente e cigarros de marcas baratas: Provisórios ou Kentucki, também conhecidos popularmente por “mata-ratos”. Servia igualmente aguardente com figos secos, ou vinho tinto para quem quisesse. O “Vira” entretanto fazia das suas e lá vinha outros dos seus "parceiros" intestinais, ou fidagais, dado o adiantado da hora:

“Pisa as uvas tintas, “Vira” pisa
Que do teu cu saiu ajuda
Dedico ali à menina Elisa,
Este peido, ai Deus me acuda!

Elisa era a filha do lavrador da casa, o Sr. Manuel das leiras grandes, que ficou todo enrubescida, não sabendo onde se havia de meter, ainda mais, porque no lagar estava a pisar uvas, um rapaz de quem ela gostava, o Augusto das Bouças. Claro que bem jantados, melhor bebidos, com a aguardente a temperar, saíam gargalhadas em catadupa das graças que se iam dizendo. O “Vira” muito sério, mas com o seu olhar malandro, lá ia dizendo para rematar: “o que vale é que os meus peidos não cheiram, é só gás…”. Todos se riam e diziam ao “Vira” que tinha que se ir tratar do nariz, talvez ser operado ou desentupido. Ou melhor, deveria ser feita uma intervenção para tapar mais o ânus e abrir mais as narinas. Era uma risota pegada.

E nas principais refeições, o convívio era algo que recordo com saudade. Todos sentados combinavam as suas tornas, falavam do ano de vinho e dos acontecimentos da aldeia. O dono da vindima convidou o senhorio, para jantar com o pessoal e assim o convívio ainda era maior. Todos tinham mais recato, mas conversam de tudo e o senhorio gostava de os ouvir. Os vindimadores também o ouviam com atenção e acenavam afirmativamente às asserções que este ia proferindo.

Bem sei que isto é passado, por certo que ainda bem, as vindimas agora já não têm esta magia, são mais eficientes e solitárias, mas são outros tempos. Apenas quis recordar dias mágicos que vivi com estes Homens extraordinários, os vindimadores, lavradores que pelo São Miguel manobravam as escadas e cestas como ninguém… uma tristeza foi ter assistido ao Tio Zé d’Além, que ficou entrevado quando caiu de uma escada de dezasseis banzos. Neste caso a dura realidade desfez a magia do miúdo que tudo isto vivia, com uma enorme alegria. O Zé foi apenas mais um dos heróis das subidas às árvores, bardos e ramadas que ainda hoje recordo. E pronto, já há vindimas em Amarante, este fim de semana, já vi tratores carregados de uvas… mas não é a mesma coisa!» in http://birdmagazine.blogspot.pt/2016/09/os-vindimadores.html



PAULO ALEXANDRE - "Verde Vinho" - (1989)



"Verde Vinho
Paulo Alexandre

Ninguém na rua, na noite fria,
só eu e o luar
Voltava a casa,
quando vi que havia
luz num velho bar
Não hesitei, fazia frio e nele entrei
Estando tão longe da minha terra,
tive a sensação
de ter entrado numa taberna
de Braga ou Monção
E um homem velho
se acercou e assim falou

Vamos brindar
com vinho verde que é do meu Portugal
e o vinho verde me fará recordar
A aldeia branca que deixei
atrás do mar
Vamos brindar
com verde vinho p'ra que eu possa cantar
Canções do Minho que me fazem sonhar
com o momento de voltar
ao lar.

Falou-me então daquele dia triste
o velho Luiz
em que deixara tudo quanto existe
para ser feliz
A noiva, a mãe,
a casa, o pai e o cão também
Pensando agora naquela cena
que na estranja vi
Recordo a mágoa, recordo a pena
que com ele vivi.
Bom português,
regressa breve, vem de vez...

Vamos brindar (2x)
com vinho verde que é do meu Portugal
e o vinho verde me fará recordar
A aldeia branca que deixei
atrás do mar
Vamos brindar
com verde vinho p'ra que eu possa cantar
Canções do Minho que me fazem sonhar
com o momento de voltar
ao lar."

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