Há 100 anos, Marie Curie recebia o seu segundo prémio Nobel. Quando começou as investigações sobre a radioatividade e depois isolou o rádio pela primeira vez, a cientista não tinha em mente as aplicações práticas da sua descoberta. Tratava-se de ciência pura.
Mas rapidamente foi compreendido o papel que a radioatividade podia ter, por exemplo, nos hospitais - com a radioterapia, no tratamento de cancros.
Hoje, embora muitas vezes não nos demos conta disso, há inúmeras tecnologias presentes no nosso dia-a-dia que se tornaram possíveis graças ao trabalho de Marie Curie (ver perfil). Aqui ficam algumas.
Energia nuclear
Fotografia: Luís Cavaco
As origens da noção da divisibilidade do átomo (princípio no qual assenta a energia nuclear) remontam à descoberta da radioatividade no urânio, pelo francês Henri Becquerel, em 1896. A partir dos estudos de Becquerel, Marie e Pierre Curie descobriram vários elementos químicos novos muito radioativos - como o rádio, o polónio e o tório. O seu trabalho foi o ponto de partida para o desenvolvimento da energia nuclear. As centrais de energia nuclear funcionam um pouco por todo o mundo, no meio de polémicas várias quanto à sua segurança. E se muitos defendem que são a fonte de energia mais limpa, outros chamam a atenção para os riscos decorrentes de acidentes. Mas a vertente mais ameaçadora da energia nuclear continua a ser a produção de armamento, como a bomba atómica.
Cálculo de idade dos materiais orgânicos
Fotografia: Luís Cavaco
Do mesmo modo que a meia vida do urânio permite fazer a estimativa da idade da Terra, é possível verificar a idade de fósseis a partir da determinação da quantidade de isótopo 14 do carbono, um elemento radioativo que existe no fóssil. Simplifiquemos: a partir do momento em que uma planta ou animal morre, deixa de incorporar átomos de carbono: o teor deste isótopo 14 começa a diminuir, caindo para metade a cada 5600 anos, o que nos permite calcular o tempo que passou desde a sua morte.
Tratamento do cancro: a radioterapia
Fotografia: Luís Cavaco
Foi uma aplicações mais bem-vindas da radioatividade. Os raios formam uma radiação ionizante que actuam ao nível das células malignas do corpo, destruindo-as e impedindo-as de se reproduzirem. Recentemente, foi anunciada uma nova técnica de radioterapia que pode eliminar o cancro numa única sessão, mesmo com o tumor já espalhado. Estará em breve disponível em Portugal, através de uma máquina quase única no mundo que ficará instalada na Fundação Champalimaud.
Detetores de fumo
Fotografia: Luís Cavaco
Os detetores de fumo podem usar uma pequena quantidade de material radioativo necessário ao seu funcionamento. Um elemento químico frequentemente utilizado é o amerício. É completamente seguro - a radiação é fraca, já que o elemento está envolvido por uma câmara de metal.
Esterilização de equipamento médico
Fotografia: Luís Cavaco
A irradiação é usada para esterilizar equipamento e instrumentos médicos - material de laboratório, cirúrgico, odontológico, de frascos, embalagens, fármacos... A radiação mata as bactérias, ao danificar os cromossomas das células. Os instrumentos são selados e colocados sob efeito de uma radiação capaz de penetrar no invólucro (raios gama, raios x, por exemplo). O invólucro mantém os instrumentos estéreis até ao momento de serem utilizados.
Fabricação de cosméticos
Fotografia: Luís Cavaco
A irradiação é um dos métodos usados pelos fabricantes de cosméticos - champôs, pastas de dentes, cremes hidratantes, etc. - para garantir que os produtos não desenvolvem micro-organismos prjudiciais aos consumidores. No fundo, uma utilização semelhante à da esterilização do equipamento médico.
Conservação de alimentos
Fotografia: Luís Cavaco
A radiaçao é usada na produção de inoculantes para a agricultura e na esterilização de frutas e vegetais. Permite diminuir a incidência de intoxicações alimentares, inibe o brotamento de raízes e tubérculos, desinfeta frutos, vegetais e grãos, atrasa a decomposição, elimina organismos patogénicos (micróbios e fungos) e aumenta o tempo de prateleira das carnes, frutos do mar, frutas, sumos de frutas, que podem ser conservados durante muito tempo sem refrigeração.
Indústria
Fotografia: Luís Cavaco
«Marie Curie: uma mulher de "primeiras vezes"
Este domingo, 11 de dezembro, passam 100 anos sobre o discurso de Marie Curie perante a Academia Sueca, que acabava de lhe atribuir o segundo prémio Nobel da sua carreira. Marie Curie inaugurou a presença ativa das mulheres em algumas áreas da sociedade na altura dominadas pelos homens. Pioneira, abriu caminho ao trabalho destas na ciência e na tecnologia. Foi também vítima da sua dedicação: morreu devido ao contacto intensivo com materiais radioativos.
Marie Curie (Maria Sklodowska) nasceu em Varsóvia a 7 de novembro de 1867. Desde muito nova o pai foi-lhe incutindo o gosto pela ciência. Durante a faculdade envolveu-se num movimento revolucionário de estudantes e teve de abandonar a sua cidade natal instalando-se em Cracóvia, território pertencente à Áustria, na altura.
Em 1891 mudou-se para Paris, onde terminou a Licenciatura em Física e Ciências Matemáticas na Sorbonne. Em França, conheceu Pierre Curie, professor na Escola de Física. Casaram em 1895. Com ele, Marie Curie levou a cabo muitas das suas investigações científicas. Em 1906, Pierre morreu atropelado. Maria sucedeu-o na docência da cadeira de Física Geral da Faculdade de Ciências, tornando-se a primeira mulher a dar aulas na Universidade de Paris.
A descoberta do rádio
O rádio, uma "dádiva à humanidade"
Nas suas investigações, Marie Curie conseguiu descobrir as propriedades terapêuticas do rádio ao separá-lo dos resíduos radioativos. Isto embora o seu trabalho inicial fosse de pura investigação científica, sem ideia das possíveis aplicações da radioatividade nos hospitais. Durante a Primeira Guerra Mundial, ela e a filha Irene trataram muitos feridos de guerra, conseguindo mesmo instalar um laboratório de radioatividade em Varsóvia.